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A mulher que faz tudo sozinha: quando a força esconde um antigo sentimento de desamparo

Ela é aquela pessoa que todos admiram

A que resolve problemas antes mesmo que eles apareçam. A que cuida dos filhos, dos pais, do parceiro, dos amigos e do trabalho. A que encontra soluções quando ninguém mais consegue enxergá-las. A que raramente pede ajuda e quase nunca demonstra o quanto está cansada.

Ao longo da vida, ela ouviu inúmeras vezes que era forte e, talvez seja exatamente por isso que poucas pessoas perceberam o que existia por trás dessa força.

Porque nem toda mulher que faz tudo sozinha escolheu ser assim. Muitas apenas aprenderam, muito cedo, que não podiam contar com ninguém.

Quando falamos sobre trauma, a maioria das pessoas ainda imagina grandes eventos, situações extremas ou experiências claramente identificáveis como traumáticas. No entanto, uma parte importante do sofrimento emocional surge de experiências muito mais silenciosas e difíceis de perceber. Experiências que não deixaram marcas visíveis, mas que moldaram profundamente a forma como uma pessoa passou a enxergar a si mesma, os outros e o mundo.

É o caso de crianças que cresceram em ambientes onde suas necessidades emocionais não encontravam acolhimento consistente. Crianças que aprenderam a não incomodar, a não demonstrar fragilidade, a não esperar ajuda. Crianças que perceberam, mesmo sem palavras, que precisavam amadurecer rápido demais.

Muitas vezes não havia violência. Não havia abandono físico. Havia comida, escola, roupas e cuidados básicos. Mas faltava algo fundamental para o desenvolvimento emocional saudável: a experiência de sentir que existia alguém disponível para oferecer segurança quando a vida se tornava difícil.

É nesse contexto que começa a nascer uma das adaptações mais admiradas e, ao mesmo tempo, mais dolorosas da vida adulta: a necessidade de dar conta de tudo sozinha.

O que parece independência nem sempre é independência

Existe uma diferença importante entre independência emocional e sobrevivência emocional.

Uma pessoa verdadeiramente independente consegue caminhar com as próprias pernas, mas também sabe reconhecer quando precisa de apoio. Ela consegue confiar, delegar responsabilidades, pedir ajuda e permitir que outras pessoas estejam presentes em momentos de vulnerabilidade.

Já quem cresceu aprendendo que suas necessidades dificilmente seriam atendidas costuma desenvolver outra forma de funcionamento. Em vez de confiar, controla. Em vez de dividir, assume. Em vez de pedir ajuda, sobrecarrega-se.

Por fora, essa postura costuma ser admirada. Por dentro, frequentemente existe uma exaustão silenciosa.

Não é raro que essas mulheres se tornem extremamente competentes. São profissionais dedicadas, mães presentes, parceiras responsáveis e amigas confiáveis. Entretanto, existe uma parte delas que permanece constantemente vigilante, como se relaxar significasse correr um risco.

Mesmo quando existem pessoas disponíveis para ajudar, elas continuam sentindo que precisam carregar tudo sozinhas.

O problema não está na capacidade de ser forte.

O problema surge quando a força se transforma na única forma possível de existir.

O desamparo aprendido e a crença de que não adianta pedir ajuda

Na década de 1970, o psicólogo Martin Seligman desenvolveu o conceito de desamparo aprendido para descrever o que acontece quando um organismo é exposto repetidamente a situações nas quais não consegue alterar o resultado de uma experiência negativa.

Com o tempo, ele deixa de tentar, mesmo quando surgem oportunidades reais de mudança.

Embora esse conceito tenha surgido em pesquisas experimentais, ele ajuda a compreender algo que observamos frequentemente na clínica. Muitas pessoas passaram anos tentando ser vistas, compreendidas, protegidas ou acolhidas emocionalmente. Em diferentes momentos da vida, essas tentativas não encontraram resposta suficiente. Costuma fazer uma analogia com o a história do elefantinho do circo. Para quem não conhece o elefantinho foi criado preso desde pequeno, isso armazenou uma memória que não seria capaz de escapar quando o circo pega fogo. Ou seja, após várias tentativas de escapar quando pequeno de uma estaca que o prendia, ele desiste. O tempo passa, ele cresce e continua acreditando que não adianta tentar, que não vale a pena, pois anteriormente todas suas tentativas deram errado.

E então, o cérebro começa a construir uma conclusão silenciosa:

Não adianta pedir

Não adianta confiar

Não adianta esperar

Eu preciso resolver sozinha

Essa crença raramente aparece de forma consciente. Ela passa a funcionar como um filtro através do qual a pessoa interpreta suas relações, seus desafios e suas necessidades. Por isso, mesmo diante de pessoas disponíveis, ela continua sentindo que está sozinha.

O corpo continua vivendo uma realidade que, muitas vezes, já não corresponde ao presente.

Por que isso não é apenas um problema emocional

Uma das maiores contribuições da neurociência do trauma foi mostrar que experiências emocionais difíceis não ficam armazenadas apenas como histórias ou lembranças. Elas também ficam registradas no sistema nervoso.

Quando uma criança cresce em um ambiente emocionalmente imprevisível, seu organismo aprende a permanecer atento. O cérebro passa a monitorar constantemente sinais de rejeição, abandono ou desapontamento. Aos poucos, o estado de alerta deixa de ser uma resposta temporária e se transforma em um padrão de funcionamento.

Stephen Porges, criador da Teoria Polivagal, descreve que nosso sistema nervoso está continuamente buscando sinais de segurança ou perigo. Quando a experiência de apoio foi inconsistente, o organismo pode aprender que depender dos outros representa um risco.

É por isso que algumas pessoas sentem desconforto quando recebem ajuda, outras sentem culpa ao descansar, algumas experimentam ansiedade quando precisam confiar em alguém.

E muitas carregam uma sensação permanente de responsabilidade excessiva.

O corpo continua preparado para uma realidade que já passou.

A mulher forte que ninguém vê

Existe algo profundamente solitário em ser vista apenas como forte.

Porque quando todos acreditam que você consegue lidar com tudo, poucos percebem o esforço necessário para continuar sustentando essa imagem.

Muitas mulheres chegam à terapia exaustas.

Não porque sejam frágeis.

Mas porque passaram décadas funcionando acima dos próprios limites.

Elas aprenderam a sobreviver através da competência, da produtividade e da capacidade de cuidar dos outros. No entanto, nunca aprenderam a receber cuidado com a mesma naturalidade.

Por trás da mulher que resolve tudo, frequentemente existe uma criança que precisou crescer rápido demais.

Uma criança que aprendeu que demonstrar necessidade não garantia acolhimento.

Uma criança que concluiu que seria mais seguro depender apenas de si mesma.

Como o EMDR e a Terapia Somática podem ajudar

Quando essas experiências permanecem registradas no sistema nervoso, compreender racionalmente sua origem nem sempre é suficiente para promover mudança.

Muitas pessoas já sabem de onde vem sua dificuldade de confiar, de pedir ajuda ou de relaxar. Ainda assim, continuam reagindo da mesma forma.

Isso acontece porque o problema não está apenas na consciência. Ele também está no corpo.

A Terapia Somática ajuda a desenvolver percepção das respostas fisiológicas que sustentam esses padrões, ampliando gradualmente a capacidade do organismo de experimentar segurança, presença e conexão.

O EMDR, por sua vez, possibilita o reprocessamento de experiências que contribuíram para a formação de crenças como:

"estou sozinha",

"não posso contar com ninguém" ou

"preciso dar conta de tudo"

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À medida que essas memórias são integradas de forma mais adaptativa, o sistema nervoso deixa de responder ao presente como se ainda estivesse vivendo o passado.

O resultado não é tornar a pessoa dependente.

  • É permitir que ela escolha

  • Escolher quando ser forte

  • Escolher quando descansar

  • Escolher quando pedir ajuda

  • Escolher quando permitir que alguém esteja ao seu lado.

Durante muito tempo, muitas mulheres acreditaram que força significava suportar

Suportar mais um problema.

Mais uma responsabilidade.

Mais uma decepção.

Mais uma sobrecarga.

Mas existe uma força mais profunda do que essa.

A força de reconhecer as próprias necessidades

A força de estabelecer limites

A força de confiar

A força de receber

A força de abandonar estratégias que um dia foram necessárias para sobreviver, mas que já não são necessárias para viver.

Porque ninguém deveria precisar passar a vida inteira provando que consegue dar conta de tudo sozinho.

E porque, em muitos casos, aquilo que foi chamado de força durante anos era apenas um sistema nervoso tentando sobreviver da única maneira que conhecia.

Luciene Marinho

Psicóloga | Neuropsicóloga | Terapeuta EMDR

CRP 06/118394

Atendimento presencial em São Paulo e online para brasileiros no Brasil e no exterior.