Ansiedade, irritabilidade, insônia e névoa mental depois dos 40: e se não forem problemas separados?

Em determinado momento da vida, algumas mulheres começam a perceber mudanças difíceis de explicar. O sono deixa de ser reparador, mesmo quando aparentemente houve tempo suficiente para dormir; a ansiedade aparece ou se intensifica sem uma causa evidente; situações que antes seriam administradas com relativa tranquilidade passam a provocar irritabilidade desproporcional; encontrar uma palavra durante uma conversa exige mais esforço; manter a concentração em uma reunião parece mais difícil e aquela capacidade de organizar inúmeras demandas simultaneamente já não funciona da mesma maneira.
A primeira interpretação costuma ser bastante pessoal: “estou sobrecarregada”, “preciso me organizar melhor”, “minha memória está piorando”, “estou ficando ansiosa demais”. Algumas mulheres chegam a questionar a própria competência, especialmente quando sempre foram produtivas, rápidas e capazes de administrar trabalho, família e inúmeras responsabilidades ao mesmo tempo.
Quando esses sintomas aparecem entre os 40 e 50 anos, existe, entretanto, uma variável que ainda é frequentemente subestimada: a transição para a menopausa também envolve o cérebro.
A perimenopausa não é apenas uma mudança no ciclo menstrual e não começa necessariamente quando a menstruação desaparece. Trata-se de uma transição neuroendócrina durante a qual as oscilações e, posteriormente, a redução dos hormônios ovarianos interagem com diversos sistemas do organismo. Sono, termorregulação, humor, cognição e percepção de bem-estar podem ser afetados, embora a intensidade e a combinação dos sintomas sejam muito diferentes de uma mulher para outra.
Isso não significa que ansiedade, irritabilidade, insônia ou dificuldades cognitivas depois dos 40 sejam automaticamente causadas pela perimenopausa. Significa que, quando esses fenômenos aparecem juntos nessa fase da vida, investigar a transição menopausal deveria fazer parte do raciocínio clínico, e não ser uma hipótese lembrada apenas depois que todas as outras falharam.
A perimenopausa começa antes da última menstruação
Existe uma confusão frequente entre perimenopausa e menopausa. Clinicamente, menopausa é confirmada retrospectivamente depois de 12 meses consecutivos sem menstruação, quando não existe outra causa para a amenorreia. A perimenopausa corresponde ao período de transição que antecede esse momento e se estende até o início da pós-menopausa.
É justamente durante essa transição que a atividade ovariana se torna mais variável. Os níveis hormonais não simplesmente diminuem de maneira linear e previsível; podem ocorrer flutuações importantes antes que se estabeleça o padrão hormonal característico da pós-menopausa.
Essa distinção é relevante porque uma mulher pode continuar menstruando e, ainda assim, já estar atravessando mudanças relacionadas à transição menopausal.
O grande estudo longitudinal SWAN — Study of Women’s Health Across the Nation — acompanha há décadas mulheres durante a meia-idade e ajudou a demonstrar que a transição menopausal envolve muito mais do que alterações menstruais. Sintomas vasomotores, alterações do sono, mudanças psicológicas, funcionamento cognitivo, saúde sexual, metabolismo, saúde cardiovascular e óssea fazem parte de um processo biológico e psicossocial muito mais amplo.
É por isso que olhar apenas para a menstruação pode fazer com que uma parte importante do quadro permaneça invisível.
O estrogênio não atua apenas no sistema reprodutivo
Para compreender por que tantas manifestações aparentemente desconectadas podem surgir nesse período, precisamos abandonar a ideia de que os hormônios ovarianos atuam apenas nos órgãos reprodutivos.
O cérebro também responde ao estrogênio.
Receptores estrogênicos estão presentes em diferentes regiões cerebrais, e os estrogênios participam de processos relacionados ao metabolismo energético, plasticidade sináptica, neurotransmissão, termorregulação e funcionamento de circuitos envolvidos em cognição e humor.
É justamente nesse campo que o trabalho da neurocientista Lisa Mosconi tem chamado atenção.
Em estudos utilizando técnicas de neuroimagem, Mosconi e colaboradores identificaram diferenças relacionadas aos estágios da transição menopausal em parâmetros de estrutura cerebral, conectividade e metabolismo energético. Um estudo publicado em Scientific Reports mostrou que a menopausa está associada a uma reorganização cerebral dinâmica, com mudanças que não devem ser interpretadas simplesmente como “o cérebro está deteriorando”. Parte dos achados sugere processos de adaptação à nova condição neuroendócrina.
Em 2024, o grupo de Mosconi publicou outro estudo particularmente interessante. Utilizando PET, os pesquisadores conseguiram investigar in vivo a densidade de receptores de estrogênio no cérebro ao longo do envelhecimento neuroendócrino e encontraram diferenças entre mulheres na pré-menopausa, perimenopausa e pós-menopausa. A densidade desses receptores apresentou relações com aspectos cognitivos e sintomas relacionados ao humor em algumas análises.
Esses resultados são importantes porque reforçam uma ideia que durante muito tempo recebeu pouca atenção: a menopausa não acontece apenas nos ovários. O cérebro também participa dessa transição.
Isso, entretanto, não significa que exista uma única explicação hormonal para todos os sintomas, nem que cada alteração cognitiva ou emocional seja consequência direta da redução do estrogênio. O funcionamento cerebral nessa fase resulta da interação entre hormônios, envelhecimento, sono, saúde física, história psicológica, contexto social e inúmeros outros fatores.
“Estou esquecendo tudo”: o que realmente sabemos sobre cognição na perimenopausa?
Uma das queixas que mais assusta mulheres nessa fase é a sensação de que a memória já não funciona como antes.
Pode surgir dificuldade para encontrar palavras, lembrar por que entrou em determinado cômodo, recuperar rapidamente uma informação durante uma reunião ou manter várias informações simultaneamente enquanto executa uma tarefa. Para uma mulher que construiu parte importante da identidade em torno da competência intelectual e profissional, essas pequenas falhas podem ser particularmente perturbadoras.
A literatura científica confirma que alterações cognitivas subjetivas são comuns durante a transição menopausal, mas é importante compreender a magnitude desses efeitos.
Estudos longitudinais, incluindo dados do SWAN e do Penn Ovarian Aging Study, encontraram alterações sutis principalmente em aprendizagem e memória verbal durante a perimenopausa. Uma revisão recente da literatura destaca que os achados são mais consistentes nesses domínios, enquanto resultados para atenção, memória de trabalho, fluência verbal e velocidade de processamento são mais heterogêneos.
O próprio SWAN trouxe uma nuance importante: em algumas avaliações, mulheres na perimenopausa não apresentavam necessariamente uma queda dramática nos escores cognitivos; o que desaparecia temporariamente era parte do ganho esperado pela repetição dos testes. Posteriormente, alguns desses efeitos não permaneceram da mesma maneira após a transição.
Portanto, sentir-se cognitivamente diferente durante a perimenopausa não significa que uma mulher esteja “ficando menos inteligente” ou desenvolvendo necessariamente uma doença neurodegenerativa.
Existe uma diferença enorme entre perceber mudanças cognitivas durante uma transição neuroendócrina e concluir que existe perda permanente de capacidade intelectual.
A névoa mental não acontece isoladamente
Existe ainda outra razão pela qual a cognição pode parecer diferente nessa fase: o cérebro não funciona separado do restante da experiência da mulher.
Imagine alguém que acorda várias vezes durante a noite, passa o dia cansada, experimenta ondas de calor, enfrenta responsabilidades profissionais intensas, cuida de filhos ou familiares, percebe alterações no humor e, ao mesmo tempo, tenta manter o mesmo nível de produtividade que possuía alguns anos antes.
É pouco plausível imaginar que atenção, memória e velocidade mental permanecerão completamente indiferentes a tudo isso.
Sono insuficiente, sintomas depressivos, ansiedade e sintomas vasomotores podem coexistir com as mudanças da transição menopausal e contribuir para a experiência subjetiva de “brain fog”. Ao mesmo tempo, a relação não é simples nem linear. Análises do SWAN mostraram, por exemplo, que ansiedade esteve associada a pior desempenho em memória verbal episódica e sintomas depressivos a menor velocidade de processamento, enquanto sono ruim e sintomas vasomotores não explicaram sozinhos todas as alterações cognitivas observadas durante a perimenopausa.
Essa complexidade é importante porque impede uma conclusão tentadora, mas cientificamente frágil: “é tudo hormonal”.
Não é.
Mas também não é adequado ignorar a transição hormonal.
Por que o sono pode mudar tanto?
Para algumas mulheres, uma das primeiras mudanças percebidas não ocorre durante o dia, mas durante a noite.
O sono se torna mais fragmentado, surgem despertares frequentes, pode haver dificuldade para voltar a dormir e, quando existem sintomas vasomotores noturnos, episódios de calor e sudorese podem interromper repetidamente a arquitetura do sono.
O problema é que uma noite ruim não termina quando a mulher se levanta da cama.
Privação e fragmentação do sono repercutem sobre atenção, memória, funcionamento executivo, tolerância emocional, percepção de estresse e energia ao longo do dia. Assim, aquilo que inicialmente parece uma série de sintomas independentes pode começar a formar um ciclo: a mulher dorme pior, fica mais cansada, percebe maior dificuldade cognitiva, sente-se menos capaz de administrar demandas, torna-se mais preocupada com o próprio funcionamento e chega à noite novamente em estado de maior ativação.
Por isso, insônia nessa fase merece avaliação adequada, sem assumir automaticamente que sua única causa é hormonal. Depressão, ansiedade, síndrome das pernas inquietas, apneia do sono, condições médicas, medicamentos e hábitos relacionados ao sono também precisam ser considerados.
E a ansiedade que parece ter surgido “do nada”?
Algumas mulheres descrevem uma experiência particularmente desconcertante: sempre se consideraram emocionalmente estáveis e, em determinado momento da meia-idade, começaram a experimentar inquietação, irritabilidade, maior sensibilidade ao estresse, palpitações, sensação de alerta ou episódios de ansiedade que não parecem compatíveis com aquilo que está acontecendo externamente.
Aqui também precisamos evitar dois extremos.
O primeiro é psicologizar tudo, procurando imediatamente um conflito emocional que explique cada sintoma; o segundo é hormonalizar tudo, atribuindo qualquer sofrimento psíquico à menopausa.
A evidência aponta para uma realidade intermediária e mais complexa.
Uma metanálise publicada em 2024, reunindo estudos prospectivos e mais de 16 mil mulheres na revisão, encontrou que mulheres na perimenopausa apresentavam risco significativamente maior de sintomas depressivos e diagnóstico de depressão quando comparadas às mulheres na pré-menopausa. Na metanálise, o aumento relativo foi de aproximadamente 40%.
Dados longitudinais do SWAN também mostram maior vulnerabilidade a sintomas depressivos durante determinados períodos da transição, embora história prévia de depressão, eventos de vida, saúde, sintomas vasomotores e fatores psicossociais exerçam influência importante.
Uma revisão sistemática sobre depressão e ansiedade durante a menopausa chegou a conclusão semelhante: existe vulnerabilidade aumentada em parte das mulheres, mas fatores hormonais não explicam isoladamente quem desenvolverá sofrimento psicológico. História psiquiátrica anterior, acontecimentos adversos contemporâneos e sintomas vasomotores também participam do risco.
Portanto, reconhecer a perimenopausa como uma janela de vulnerabilidade não significa dizer que todas as mulheres ficarão ansiosas ou deprimidas.
A maioria não desenvolverá necessariamente um transtorno psiquiátrico.
Significa reconhecer que, para algumas mulheres, essa transição pode modificar o contexto biológico dentro do qual o estresse e as experiências emocionais estão sendo processados.
A irritabilidade também merece ser compreendida, não julgada
A irritabilidade costuma ser um dos sintomas mais difíceis de reconhecer porque frequentemente é interpretada como um problema de personalidade.
A mulher percebe que sua tolerância diminuiu, que ruídos incomodam mais, que pequenas demandas parecem excessivas ou que situações que antes administrava com facilidade agora provocam uma reação emocional mais intensa. Depois, muitas vezes, vem a culpa: “por que estou reagindo assim?”
É importante lembrar que irritabilidade não possui uma causa única. Ela pode aparecer associada à privação de sono, sobrecarga, ansiedade, alterações de humor, sintomas físicos, estresse crônico e mudanças neuroendócrinas, entre outras condições.
Durante a perimenopausa, vários desses fatores podem ocorrer simultaneamente.
Talvez a pergunta mais produtiva não seja “o que há de errado comigo?”, mas “o que mudou no meu organismo, na minha vida e nas demandas que estou tentando sustentar ao mesmo tempo?”
Essa mudança de perspectiva evita tanto a culpabilização quanto a simplificação.
Uma fase biológica pode encontrar uma vida que já estava sobrecarregada
Existe um aspecto que não deveria ser esquecido quando falamos sobre mulheres na meia-idade.
A perimenopausa não acontece em um laboratório.
Ela acontece enquanto uma mulher continua trabalhando, administrando relacionamentos, cuidando de filhos, lidando com pais que envelhecem, enfrentando mudanças conjugais, preocupações financeiras, transformações profissionais e inúmeras outras demandas.
Para algumas, essa também é a fase em que décadas de funcionamento baseado em alta exigência começam a cobrar um preço.
Uma mulher que sempre conseguiu compensar privação de sono, estresse e excesso de responsabilidades pode descobrir que seu organismo já não responde da mesma maneira. Isso não significa necessariamente que ela tenha se tornado menos competente. Significa que o contexto fisiológico mudou enquanto as exigências externas talvez tenham permanecido iguais, ou aumentado.
É justamente por isso que uma abordagem adequada precisa considerar a mulher como um todo.
Nem apenas hormônios.
Nem apenas cérebro.
Nem apenas história emocional.
Nem apenas estilo de vida.
A experiência da perimenopausa emerge da interação entre todos esses elementos.
O risco de tratar sintomas isoladamente
Quando uma mulher procura ajuda para insônia, depois consulta outro profissional pela ansiedade, tenta compensar a dificuldade de concentração aumentando cafeína e cobrança, e interpreta a irritabilidade como falha pessoal, existe o risco de fragmentar um fenômeno que talvez precise ser compreendido de maneira integrada.
Isso não significa que todos os sintomas tenham a mesma causa ou que devam receber o mesmo tratamento.
Significa que a pergunta clínica deveria ser mais ampla.
Quando esses sintomas começaram? Houve mudanças no ciclo menstrual? Existem ondas de calor ou sudorese noturna? Como está o sono? Existe histórico anterior de ansiedade ou depressão? Quais medicamentos estão sendo utilizados? Como estão as demandas profissionais e familiares? Existem condições médicas que poderiam produzir sintomas semelhantes?
Essa investigação é particularmente importante porque nem tudo que aparece aos 40 ou 50 anos é perimenopausa. Alterações tireoidianas, anemias, deficiências nutricionais, distúrbios do sono, efeitos medicamentosos, transtornos de humor e outras condições clínicas também podem produzir sintomas sobrepostos.
Reconhecer a menopausa não significa parar de investigar.
Significa incluí-la adequadamente na investigação.
A mulher não deveria precisar escolher entre “é psicológico” e “é hormonal”
Talvez uma das consequências mais prejudiciais da fragmentação da saúde feminina seja obrigar a mulher a escolher entre explicações que não são mutuamente excludentes.
Hormônios influenciam o cérebro; o cérebro participa da experiência emocional; o sono influencia cognição e humor; experiências de vida modulam a resposta ao estresse; condições sociais modificam a carga que uma pessoa precisa sustentar; saúde física e mental interagem continuamente.
Não existe uma fronteira biológica onde termina o corpo e começa a mente.
É por isso que, diante de mudanças importantes nessa fase, o cuidado pode exigir diálogo entre diferentes áreas. Avaliação ginecológica e médica é importante para compreender o estágio da transição menopausal, sintomas associados, fatores de risco e possibilidades terapêuticas; avaliação psicológica ou psiquiátrica pode ser necessária quando existem alterações significativas de humor, ansiedade ou funcionamento; e uma avaliação neuropsicológica pode ser indicada quando as queixas cognitivas são persistentes, progressivas, atípicas ou interferem de maneira relevante na vida cotidiana.
A resposta não deveria ser automaticamente um antidepressivo, uma terapia hormonal, psicoterapia ou qualquer outra intervenção isolada antes de compreender o quadro.
O primeiro passo é uma avaliação adequada.
O que os estudos de Lisa Mosconi realmente acrescentam a essa conversa?
Talvez a contribuição mais interessante do trabalho de Mosconi não seja simplesmente afirmar que “o estrogênio é importante para o cérebro”, algo que já era conhecido, mas tornar visível por neuroimagem que a transição menopausal está associada a mudanças mensuráveis no cérebro humano.
Seu estudo de 2021 encontrou diferenças relacionadas à estrutura, conectividade e metabolismo cerebral ao longo dos estágios da menopausa e também sinais de adaptação após a transição.
Já o estudo de 2024 mostrou, pela primeira vez in vivo, diferenças na densidade cerebral de receptores de estrogênio relacionadas ao envelhecimento neuroendócrino, acrescentando uma nova dimensão à compreensão de como o cérebro feminino responde à transição hormonal.
Esses estudos são fascinantes, mas precisam ser comunicados com responsabilidade. Eles não demonstram que toda mulher apresentará “declínio cerebral”, tampouco permitem concluir que determinado sintoma individual seja provocado diretamente por uma alteração observada em neuroimagem.
O que eles fortalecem é uma perspectiva muito mais relevante: a menopausa é também uma transição neurológica e neuroendócrina, e o cérebro feminino merece ocupar um lugar central nas pesquisas sobre essa fase da vida.
Talvez você não esteja “deixando de ser você”
Para uma mulher que sempre confiou na própria memória, produtividade, estabilidade emocional ou capacidade de administrar inúmeras responsabilidades, perceber mudanças nessas áreas pode atingir muito mais do que o funcionamento cotidiano.
Pode atingir a identidade.
“Eu sempre dei conta.”
“Minha cabeça nunca foi assim.”
“Por que agora tudo me cansa?”
“Será que estou ficando deprimida?”
“Será que minha memória está falhando?”
Essas perguntas merecem ser levadas a sério, mas não precisam ser respondidas com catastrofização.
A perimenopausa é uma transição real, com manifestações biológicas reais, e algumas mulheres apresentam alterações importantes enquanto outras atravessam esse período com poucos sintomas. Há também evidências de que determinadas mudanças cognitivas observadas durante a transição podem ser sutis e transitórias, enquanto outras que aparecem com o avanço da idade precisam ser analisadas dentro do contexto mais amplo do envelhecimento.
Por isso, perceber uma mudança não significa concluir imediatamente que existe uma doença.
Significa reconhecer que existe algo que merece ser compreendido.
Compreender a perimenopausa muda a forma como cuidamos da mulher
Durante muito tempo, a menopausa foi culturalmente tratada como o momento em que a mulher deixa de menstruar, acompanhado eventualmente por ondas de calor.
A ciência mostra uma realidade muito mais ampla.
Essa é uma transição neuroendócrina que pode envolver mudanças no sono, termorregulação, humor, cognição, metabolismo e diferentes dimensões da saúde, ao mesmo tempo em que acontece dentro de uma fase da vida marcada por experiências psicológicas, relacionais e sociais próprias.
Talvez por isso ansiedade, irritabilidade, insônia e névoa mental não devam ser vistas imediatamente como quatro problemas independentes.
Também não deveriam ser automaticamente atribuídas aos hormônios.
O caminho mais responsável está entre esses dois extremos: reconhecer padrões, investigar o contexto, compreender a transição menopausal e olhar para cada mulher em sua singularidade.
Porque, quando uma mulher diz que não se reconhece mais, a resposta não deveria ser “isso é normal da idade” nem “isso é apenas ansiedade”.
A pergunta deveria ser muito melhor:
O que realmente está acontecendo com essa mulher, biologicamente, emocionalmente e dentro da vida que ela está vivendo?
É quando começamos a fazer essa pergunta que deixamos de tratar sintomas isolados e passamos a compreender a pessoa que está vivendo todos eles.
Perguntas frequentes
A perimenopausa pode causar ansiedade mesmo em quem nunca foi ansiosa?
A transição menopausal pode representar um período de maior vulnerabilidade a alterações de humor e ansiedade para algumas mulheres, embora isso não aconteça com todas. História psicológica anterior, sintomas vasomotores, sono, acontecimentos de vida e fatores psicossociais também influenciam o risco. Por isso, ansiedade de início recente nessa fase merece avaliação, sem ser automaticamente atribuída aos hormônios.
A perimenopausa pode afetar memória e concentração?
Sim, algumas mulheres relatam alterações cognitivas durante a transição, e estudos longitudinais encontraram mudanças sutis especialmente em aprendizagem e memória verbal. Entretanto, isso não equivale automaticamente a declínio cognitivo permanente ou demência, e outros fatores como idade, humor, saúde e sono precisam ser considerados.
Brain fog na menopausa significa início de demência?
Não. Queixas de névoa mental são relatadas durante a transição menopausal e, isoladamente, não significam demência. Mudanças progressivas, importantes ou que comprometam significativamente a autonomia e o funcionamento cotidiano devem, entretanto, ser avaliadas clinicamente.
Insônia, irritabilidade e ansiedade podem estar relacionadas entre si?
Podem. Sono, humor, estresse, sintomas vasomotores e funcionamento cognitivo interagem, embora não exista uma única cadeia causal aplicável a todas as mulheres. Uma avaliação adequada precisa investigar esses fatores conjuntamente.
Toda mulher terá sintomas psicológicos na perimenopausa?
Não. Existe grande variabilidade individual. Muitas mulheres atravessam a transição sem desenvolver depressão, ansiedade significativa ou alterações cognitivas importantes. A perimenopausa deve ser entendida como uma possível janela de vulnerabilidade, não como uma doença inevitável.
Como saber se os sintomas são da perimenopausa ou de ansiedade e depressão?
Nem sempre é possível separar essas condições apenas pela descrição de um sintoma. Momento de início, alterações menstruais, sintomas vasomotores, histórico psicológico, sono, medicamentos, condições médicas e contexto de vida precisam ser considerados. Em alguns casos, avaliação integrada entre ginecologia, saúde mental e outras especialidades é a abordagem mais adequada.
Quando as queixas de memória precisam ser investigadas?
Quando são progressivas, muito diferentes do funcionamento anterior, interferem significativamente no trabalho ou na autonomia, são percebidas também por pessoas próximas ou aparecem acompanhadas de outros sinais neurológicos, uma avaliação médica e, quando indicada, neuropsicológica pode ajudar a diferenciar mudanças associadas à transição menopausal de outras condições.
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